"Quando me vi tendo de viver comigo apenas e com o mundo, você me veio como um sonho bom. E me assustei, não sou perfeito..." (Teatro dos Vampiros - Legião Urbana)
Quando eu era bem pequeno (por volta de uns 5 anos de idade), eu vivia dentro das histórias. Adorava uma boa história, principalmente aquelas que envolviam castelos, princesas, príncipes em cavalos brancos. Odiava histórias de aventura sem nexo, de violência por nada. Sim, eu era pequeno mas tinha sensibilidade para isso. Naquela é poca eu já adorava o mar, nadava como um peixe, nunca tive medo de água. Quando íamos a praia, eu queria criar barbatanas e ir embora mar adentro, como um peixe, ou uma sereia... A pequena sereia... Não, eu não queria ter longos cabelos vermelhos, eu só queria fazer parte daquele mundo que me parecia tão rico e encantador.

Aos 8 ou 9 anos, eu e minha família morávamos em um condomínio grande, com mais de 10 blocos. Ao lado do condomínio, havia uma padaria, onde havia uma programação de videokê de palco toda sexta-feira há noite. Eu sempre ia com os meus pais, adorava ver as pessoas cantarem ou pagar mico. Até que um dia eu mesmo cheguei e pedi para cantar. Cantei "Catedral" (Zélia duncan). Para vocês verem que eu já tinha bom gosto pra música àquela época. E eu tinha uma voz muito bonita, eu era afinado, levava jeito pra coisa. Ver as pessoas me aplaudindo, mas por eu ser uma criança do que por algum talento, me deixava radiante. Tanto que dalí em diante, meu plano era me tornar cantor. Se alguém chegasse para mim, àquela época, e me perguntasse o que eu gostaria de ser quando crecesse, eu respoderia "Quero ser cantor". Estava tão convicto que pedi por várias vezes para meus pais me colocarem em uma aula de canto, mas eles nunca me deram ouvidos com relação a isso. O tempo passou, minha cabeça foi mudando, minha voz foi mudando, a timidez se tornando característica marcante na minha personalidade... De modo que, se existe algum talento de fato, ele está muito bem escondido pela timidez e falta de treino... rsrsrs
Início da puberdade, questões sérias vindo a tona. Essa fase é muito complicada, envolve transformações no corpo, na cabeça... Contato com novas formas de ver o mundo, novas ideologias. Tudo que fizesse todo sentido do mundo me parecia convidativo. Foi então que um professor de História (sempre são os professores de história, rsrs), com aquele discurso eloquente que só ele tinha, fez com que eu me apaixonasse pela ideologia do Socialismo Científico. Era incrível como aqueles ideais faziam sentido pra mim. Chegou a virar uma característica minha... E com o passar do tempo, só foi piorando. A medida que o tempo passava, e eu lia mais sobre o assunto, mais eu refletia, debatia, corrigia, moldava... De modo a se tornar algo que funcionava de maneira muito lógica na minha cabeça. Eu criei o meu próprio socialismo científico, e acreditava que um dia eu poderia convencer as pessoas de que minhas ideias eram boas e eu poderia assim mudar o mundo. Pena que agente cresce, e chega uma hora em os pés alcançam o chão.
O meio da adolescência, lá pelos 15 ou 16 anos. Minha cabeça já estava pra lá de confusa. No auge da paixão pela minha ideologia, eu começava a acordar para a realidade. Não que eu tenha desistido dessas ideias, elas estão aqui até hoje, mesmo que escondidas de alguma forma. Mas eu começava a sentir a cobrança das pessoas, em todos os campos: profissional, sentimental... O que eu, de fato, queria ser quando fosse a hora de escolher? Essa era uma preocupação que me atormentava demais. Eu queria entender o Universo, queria ajudar as pessoas, queria ganhar dinheiro. Nessas idas e vindas eu acabei me encantando com a carreira oferecida pelo IME (Instituto Militar de Engenharia). Lá eu usaria uma farda bonita, faria exercícios, emagreceria, ficaria forte, estudaria coisas interessantes, ganharia dinheiro (pelo menos o suficiente para conquistar minha independência). Ignorava quando me diziam que aquela prova era realmente difíciu, que eu tinha que me preparar muito... Fui com a cara e a coragem prestar um concurso que durava 5 dias, uma verdadeira tortura psicológica. A prova era tão surreal, que eu me preocupei em olhar mais para o Pão de Açúcar (a sala em que eu prestei o concurso ficava e frente para o famoso cartão postal) do que para aquelas questões que pareciam escritas em um dialeto oriental para o meu cérebro. Resultado: Compareci apenas nos dois primeiros dias de prova, e abortei de uma vez por todas o "sonho" de me tornar engenheiro militar.
Esses são os meus planos impossíveis, minhas frustações mais íntimas e pessoais. Meus sonhos, que eu posso chamar de incoerentes, para não dizer absurdos em determinadas situações. Mas, como eu disse, são sonhos, e sonhos podem se dar ao luxo de serem absurdos, ou incoerentes. Vez ou outra eles voltam a ocupar meus pensamentos, seja para me divertir, ou para me trazer nostalgia, arrependimento. Apesar disso, não os esqueceria jamais. São eles os responsáveis pelo que sou hoje, ou melhor, é a não realização deles que me construiram, e eu estou satisfeito com o que sou hoje, apesar dos pesares. Se os caminhos que eu escolhi não foram os que me fariam uma pessoa mais feliz, eu nunca saberei. Só me resta reconstruir o que jamais foi ou será construido, dentro da minha cabeça. Imaginar possibilidades, e continuar sonhando sonhos impossíveis, absurdos e incoerentes, sem ter medo do futuro, porque a felicidade não depende da realização dos seus sonhos.
Não sei o que deu em mim, acho que foi uma onda de nostalgia. Vez ou outra isso acontece comigo... rsrsrs
Um beijo enorme, minha gente... Até o próximo