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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Memórias, Gays e Canções de Amor

Sabe o que pra mim é mais cruel para o coração de um gay adolescente? É ver que ele não pode se indentificar com nenhuma das músicas que tocam no rádio. A música, na minha visão, é um grande objeto de identificação social, pelo menos foi para mim. No colégio, as pessoas do meu "grupinho" gostavam mais ou menos do mesmo estilo de música (Rock e Pop dos anos 80). O problema é que as exigências do mercado musical sempre acompanham o rítmo daquilo que é tido como padrão. Nesse sentido, mesmo sendo os artistas homosexuais, a rejeição do público meio que os obriga a fazer canções que sigam o padrão vigente, principalmente no que diz respeito ao amor.

Não estou dizendo aqui que não existiram, durante o século XX, bandas ou artistas que se opuseram radicalmente à essa norma heterodominante. Entre os exemplos mais clássicos (pelo menos na minha cabeça) está o Queen: apesar de Freddie Mercury só ter assumido a sua homossexualidade à imprensa horas antes de morrer, o seu modo de se vestir, ou de usar o cabelo e a barba, eram caracteristicos de um grupo de homossexuais americanos, de modo que o Queen perdeu o mercado musical dos EUA, que sempre foi um país extremamente homofóbico radical com essas questões. Outros exemplos que eu não podia deixar de citar aquí são o David Bowie, chocando a todos com o seu visual andrógeno , e o Lou Reed (que é americano), assumidamente gay. Só que estes artistas, se já não eram antes, pelo menos agora já se tornaram muito underground, de modo que é realmente raro ouvi-los nas rádios mais comuns, ou mesmo na TV. Seu território é restrito a Internet.








Ainda assim, por mais gays que muitos dos artistas gays possam parecer, o mercado ainda modula muito a produção deles. O próprio Queen não tinha muitas músicas que entrassem de cabeça no universo gay, apenas em parte, ou de maneira muito implícita. O Lou Reed e o David Bowie foram mais corajosos e ousados, o que lhes rendeu a rejeição do mercado musical (não exatamente rejeição, porque eles fizeram muito sucesso no tempoo deles, mas restritamente na Europa, que sempre foi mais receptiva com os estilos alternativos).

No cenário nacional então, nem se fala né. Todos aquí sabem que eu adoro Legião Urbana, e que o Renato Russo era assumidamente gay. Mas se vocês forem bastante imparciais, vocês não vão encontrar mais que uma música que fale abertamente sobre homossexualidade na obra da Legião (mesmo a famosa "Meninos e Meninas" é bastante amena). Muitas delas agente pode encaixar perfeitamente, mas ainda assim são muito implícitas, dando margem há uma série de interpretações diferentes. Outros artistas, como o Cazuza e o Ney Matogrosso, apensar de não conhecer muito vastamente sua obra, duvido muito que se distancie muito da realidade da Legião. Mesmo as cantoras lésbicas são mais discretas no que diz respeito a obra. A Cássia Eller tinha um visual que mostrava a todos sua sexualidade, mas suas músicas não o fazia de forma explicita (se bem que a Cássia era mais uma interprete do que compositora, né?). O mesmo vale para outras cantoras incríveis, como Angela Roro e Ana Carolina.




Eu acho isso tudo muito chato, sinceramente. Os nossos ídolos tem que se desdobrar as vezes, mudar pessoas, pronomes, para que sua musica se torne comercial. É como se fosse uma camuflagem musical. Com o tempo, essa camuflagem vai se tornado cada vez menos eficaz, e conseguimos encontrar cada vez mais elementos que tornem aquela relação abordada naquela canção de amor uma relação entre dois homens, ou duas mulheres. Os tempos são outros, não é? Tem uma música porém, que eu acho linda, que quase ninguém associa a gays. Realmente, ela é bastante sutil, mas ainda assim, se encaixa muito melhor com um casal gay do que com um casal hetero, por um simples trecho... Na verdade por uma palavra. Ela é do Sir. Elton John, a bicha mais Rycah do Reino Unido (vamos combinar, Elton John é foda demais). E a música é "Your Song"




"It's a little bit funny this feeling inside
I'm not one of those who can easily hide
I don't have much money but boy if I did
I'd buy a big house where we both could live
If I was a sculptor, but then again, no
Or a man who makes potions in a travelling show
I know it's not much but it's the best I can do
My gift is my song and this one's for you
And you can tell everybody this is your song
It may be quite simple but now that it's done
I hope you don't mind
I hope you don't mind that I put down in words
How wonderful life is while you're in the world
I sat on the roof and kicked off the moss
Well a few of the verses well they've got me quite cross
But the sun's been quite kind while I wrote this song
It's for people like you that keep it turned on
So excuse me forgetting but these things I do
You see I've forgotten if they're green or they're blue
Anyway the thing is what I really mean
Yours are the sweetest eyes I've ever seen"
(Your Song - Elton John)

Fala sério, ele é incrível, né? Outra música, bem mais explícita do que esta, é uma do Jorge Vercillo. Eu, sinceramente, não sei se o Jorge Vercillo é gay ou hetero, mas essa música com certeza é para um casal gay, não consigo imaginar outra situação. O fato de ele não ser gay tornaria a música mais interessante, afinal, um artista hetero assumindo um eu lirico gay seria o sinal de que a sociedade caminha de certa forma para uma igualdade. O nome da música é "Avesso".

"Nós já temos encontro marcado
Eu só não sei quando
Se daqui a dois dias
Se daqui a mil anos
Com dois canos pra mim apontados
Ousaria te olhar, ousaria te ver
Num insuspeitavel bar, pra decência não nos ver
Perigoso é te amar, doloroso querer
Somos homens pra saber o que é melhor pra nós
O desejo a nos punir, só porque somos iguais
A Idade Média é aqui
Mesmo que me arranquem o sexo, minha honra, meu
prazer
Te amar eu ousaria
E você, o que fará se esse orgulho nos perder?
No clarão do luar, espero
Cá nos braços do mar me entrego
Quanto tempo levar, quero saber se você
É tão forte que nem lá no fundo irá desejar
O que eu sinto, meu Deus, é tão forte!
Até pode matar
O teu pai já me jurou de morte
por eu te desviar
Se os boatos criarem raízes
Ousarias me olhar, ousarias me ver
Dois meninos num vagão e o mistério do prazer
Perigoso é te amar, obscuro querer
Somos grandes para entender, mas pequenos para opinar
Se eles vão nos receber é mais fácil condenar
ou noivados pra fingir
Mesmo que chegue o momento que eu não esteja mais
aqui
E meus ossos virem adubo
Você pode me encontrar no avesso de uma dor
No clarão do luar, espero
Cá nos braços do mar me entrego
Quanto tempo levar, quero saber se você
É tão forte que nem lá no fundo irá desejar"
(Avesso - Jorge Vercillo)

Eu me emocionei quando ouvi essa música pela primeira vez. Nunca tinha escutado algo tão despreocupado que falasse sobre uma relação entre dois homens. E felizmente, a tendência é que músicas como estas sejam cada vez mais comuns. Quero dizer por fim que eu não tenho uma experiencia invejável no que diz respeito a música. Devem existir muitas bandas ótimas que fazem um trabalho magnífico nesse sentido. Eu só falo aqui pelo que eu ouço no meu dia a dia, em rádios comuns, que não tocam nenhum tipo de conteúdo  realmente bom específico. Logo, se alguém quiser fazer alguma sugestão legal, fiquem a vontade! Estou aqui, esperando os comentários de vocês...



Um grade abraço a todos, um beijo e Até o próximo post!!!

11 comentários:

Cocada.g disse...

Olá Julio! Pois é, eu tambem penso igual a você... curto muito musica, ouço de tudo e realmente entre cantores e bandas bem reconhecidas pouco vi ou ouvi alguma musica que fale do amor homossexual... Mas com bandas nao muito conhecidas em inicio de carreira ou que não tem muita fama pra derrubar ja ouvi muitas musicas.. Existe tambem aqueles que usam o tema só pra alavancar carreira e vender mais! Katy perry por exemplo em I kissed a girl, tem a dupla tatoo que seriam lesbicas mas na verdade isso foi desmentido...
Ah sobre a musica do Jorge vercilo, realmente fala sobre amor homossexual, mas me lembro que na epoca ele falou que a musica era para homenagear um amigo produtor gay, acho que foi isso,,, e ele disse que era hetero!

É isso ai, quem sabe algum dia um gay assumido faça sucesso com musicas sobre amor entre pessoas do mesmo sexo!

abraços!

FOXX disse...

preciso fazer uma crítica, como historiador, Bowie e Lou Reed fizeram um sucesso imenso, claro q nada comparado com a cultura de massa de hj em dia, mas eles fizeram sim um sucesso imenso. não ocuparam os topos das paradas americanas? não! mas a América ouvia Presley aquela época, não ouviria Bowie, ela era mto mais conservadora q hoje em dia.

ponto 2: Renato Russo não era assumidamente gay, como até hoje Ney Matogrosso nunca chegou e disse, na frente de uma câmera, sou gay sim e daí. Nem Ângela RoRo. Ana Carolina veio com esse papo de que pega mulher "tb". Isso não é assumir-se gay, é no máximo dizer q tem a mente aberta.

Jorge Vercillo, segundo me contaram é gay, teria assumido isso para um jornal, e por isso cortado fora da Tv Globo (notou q ele não aparece mais?), como aconteceu anos atrás com Lecy Brandão. Assumir-se gay, no mercado musical brasileiro, ainda é um problema.

Lobo disse...

Música é um grande objeto de identificação social, não é o único. Assim como não acho que um artista gay tenha que fazer músicas que só falem sobr o universo gay, a música vai muito além disso. Não ter liberdade para fazê-lo quando desejado é sim, péssimo, mas também temos que tomar cuidado para não tornarmos isso uma obrigação e tentar reduzir a obra de alguém a apenas isto.

Um beijo Júlio, e feliz natal!

Gui disse...

Sobre a música do Elton John, na verdade, Júlio, ela é tema de Moulin Rouge, sendo cantada de homem pra uma mulher (do Ewan McGregor pra Nicole Kidman, música linda, btw).

Eu não tenho essa identificação não. Acho que o que importa é a relação, se é de amor, então a gente adapta caso não seja explicitamente para o meio gay.

Beijos

Júlio César Vanelis disse...

@Cocada.g: Eu preferi nem menionar antoras omo Kate Paeery e a Lady Gaga porque elas só querem chamar atenção mesmo. Não é nada real...

@Foxx: Eu não disordo de você om relação ao Bowie e ao Lou Reed. Realmente, eles fizeram muito socesso na Europa. Mas perder o merado ameriano teve onsequenias a longo prazo, afinal de contas hoje eles tem um status de cult, e não de pop, como tem o Elvis. E Renato Russo assumiu sua homossexualidade ainda com a Legião, não me lembro o ano, mas lembro que foi numa entrevista para uma rádio. Sobre o Ney, eu realmente não sabia.

@Lobo: Não estou façando de fazer disso uma obrigação, apenas tratar o tema om mais naturalidade, sem a neessidade de se camuflar. Da própria legião, eu adoro as músicas em que o eu lírio é heterossexual, e concordo que a legião não seria a mesma sem essas músias.

@Gui: Eu sei que essa músia foi tema de Moulin Rouge. Mas eles tiveram que alterar a letra para caber no contexto. Dessa forma, se vc ler a letra, vai ver que claramente é uma músia de um homem para outro homem, tem partes da letra que falam disso. Mas da mesma forma que nós adaptamos músicas feitas para asais heteros, a produção de Moulin Rouge também adaptou a letra de um asal gay para um hetero.

Borboletas nos Olhos disse...

Querido, o Chico Buarque escreveu Mar e Lua que trata do amor entre duas mulheres de forma bem explícita. E é linda! Aliás na peça Calabar há o amor entre Ana e Bárbara que rende lindas canções, por ex quando ela diz: "o meu destino é caminhar assim desesperada e nua, sabendo que no fim da noite serei tua". Segue a Letra de Mar e Lua:

Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepio
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Rolando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
E à beira-mar

Antonio de Castro disse...

independente se são gays assuidos ou mesmo gays ou se cantam para gays... sei lá, não gosto muito dessa idéia de uma música pra gay, do mesmo jeito que não gosto da ideia de musica para hetero.

a liberdade poética tb ta nas nossas cabeças quando interpretamos uma música.

dessa sua lista: Elton John, David Bowie, Freddy Mercury, Ney Matogrosso são meus preferidos.

BsVoxx disse...

Julio,

Concordo com a sua revolta com a heteronormatividade, mas eu sempre encarei a música de forma neutral ... Levando em conta o sentimento e a encarando de forma a canalizar meus sentimentos ... Vc bem citou a questão do Eu Lirico ... ele liberta o compositor e o cantor ... me lembro bem das canções do Chico Buarque em q ele cantava para homens ... Bjs e Feliz Natal ...

Bruno disse...

Penso que não é questão de as letras serem 'amenas'
letra de música é, em geral, poesia. Poesia não pode ser vista e analisada superficialmente: sempre há um porque e um porém, um detalhe que a faz e transforma e transmite (ou omite) uma mensagem.
nenhum autor faz a música para si e nem poeta fala de si em poesia. Ambos mentem. Como disse Alberto Caeiro "Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse."
Eles mentem e isso é o que tornam suas obras imparcialmente parciais.

Your Song é a música que, um dia, alguém ainda vai cantar pra mim :)

vanda borba disse...

Olá, acabo de ler esse texto e achei bastante interessante. De fato até onde eu saiba Jorge Versillo é heterossexual, pelo menos seu atual relacionamento o é, ele é casado e tem 2 filhos.
Sobre Cazuza e Ney Matogrosso eu gostaria de sugerir que vc fosse fundo na discografia deles, além de serem incríveis trazem muito conteúdo sobre homossexualidade e bissexualidade.
Lembrando que tanto cazuza quanto Ney são bissexuais.
De cazuza por exemplo eu sugiro que você olhe as letras de "eu quero alguém", "como já dizia Djavan", "culpa de estimação" e interpretação de "esse cara". Cazuza na verdade costuma tratar de temas amorosos em suas músicas de forma recorrente mas na maioria das vezes não há propriamente um gênero para o qual ele está cantando, ele fala de amor, vc identifica como quiser.
Já em relação a Ney ele é um intérprete então muitas músicas são de caráter heterossexual, mas não que ele siga nenhum padrão do contrário, Ney é a própria ruptura de padrões e expectativas. Ele escolhe as músicas porque gosta deles musicalmente, não por atender a um ou outro gênero e muitas de suas músicas nem tocam em questões de amor e relacionamentos.
"Homem com H" é uma música sobre a masculinidade padrão e que ele canta em tom de total deboche. Outra música bastante debochada é "Calúnias (telma Eu Não Sou Gay)".
Outro fato interessante sobre a discografia de Ney é que sempre que vc ouvir uma música cuja letra seja de Cazuza (exemplo "Poema"), independente do teor da letra, saiba que ele está cantando com muito amor. Cazuza foi o grande amor da vida de Ney, como ele declarou a alguns anos.
Outros cantores em que vc pode achar ótimas referências é em Caetano e Gil, ambos também bissexuais.
Na letra de "Soy loco por ti américa", ele fala que quer morrer nos braços de uma mulher, de uma camponesa guerrilheira. Mas na última estrofe fala que quer morrer "nos braços de quem me queira".
Acho que ao invés de cobrar objetividade e claras referências homossexuais nas letras da mpb vc deveria refletir que muitos são bissexuais, e interpretam o amor como uma relação muito livre daí quase nunca a necessidade de expressar o gênero do ser amado =D

Jimmy Andrade disse...

Olá,

Sou cantor/compositor, e também lancei uma música "gay" rs.

Se chama "Quarta-Feira À Noite". Convido-os a escutarem e interpretarem ;)

http://soundcloud.com/jimmyandrade/quarta-feira-noite